segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Vivências


“ Ouço a chuva a cair, consigo senti-la a tocar o chão que pisas, quase que por magia sinto as gotas a tocar no meu peito e as tuas mãos nas minhas”, era o que me contava nas tardes de sábado quando a levava a passear e nos sentávamos naquele mesmo banco de jardim onde conhecera o seu grande amor. A cada dia que passava o seu discurso tornava-se um misto de passado e presente, de real e imaginário; memórias estas que acabavam em pequenos rasgos de lucidez. Continuei a leva-la a passear, mas agora não era ela que me falava dessa linda história de amor, agora era eu que lhe contava tudo o que ao longo destes anos tinha vivido. 
Já não se lembrava do meu nome, já não se lembrava da minha pessoa, já nem dela se lembrava, mas mesmo assim ainda falava nele. Pouco, muito pouco, mas falava… Por breves momentos o seu batimento acelerava, mas de um momento para o outro voltava a si. A si não, porque ela já não estava ali, o seu corpo estava! 
Os seus olhos deixaram de brilhar e eu voltei a pegar-lhe nas mãos e contei-lhe tudo de novo como se fosse uma história de encantar…

E hoje lembro-me. 
Lembro-me da última coisa que disse quando lhe perguntaram quem eu era… “ é a menina dos olhos bonitos”.

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