“ Ouço a chuva a cair, consigo senti-la a tocar o chão que
pisas, quase que por magia sinto as gotas a tocar no meu peito e as tuas mãos
nas minhas”, era o que me contava nas tardes de sábado quando a levava a
passear e nos sentávamos naquele mesmo banco de jardim onde conhecera o seu
grande amor. A cada dia que passava o seu discurso tornava-se um misto de
passado e presente, de real e imaginário; memórias estas que acabavam em
pequenos rasgos de lucidez. Continuei a leva-la a passear, mas agora não era
ela que me falava dessa linda história de amor, agora era eu que lhe contava
tudo o que ao longo destes anos tinha vivido.
Já não se lembrava do meu nome, já não
se lembrava da minha pessoa, já nem dela se lembrava, mas mesmo assim ainda
falava nele. Pouco, muito pouco, mas falava… Por breves momentos o seu
batimento acelerava, mas de um momento para o outro voltava a si. A si não, porque
ela já não estava ali, o seu corpo estava!
Os seus olhos deixaram de brilhar e
eu voltei a pegar-lhe nas mãos e contei-lhe tudo de novo como se fosse uma
história de encantar…
E hoje lembro-me.
Lembro-me da última coisa que disse quando
lhe perguntaram quem eu era… “ é a menina dos olhos bonitos”.
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